domingo, fevereiro 28, 2010

ODEIO CIGARROS

Atônito no ponto,
rodopiante e tonto,
parece que a cidade é minha pele...
Não é o mal que causa a solidão,
mas o desvio do tráfego, que descamba
na profusão do coração;
é tudo fatalismo,
mas deixe assim por mim,
abaixo o casuísmo,
a dor é uma questão de aptidão,
e quando o blues acabar,
cada um pra sua casa,
e a razão, pra debaixo da ponte dos suicidas,
deixe a cura pra outras vidas, baby,
aqui comigo, o rock errou,
aqui comigo o rock errou...


Intrépido no crime,
o risco não redime,
a corda bamba é meu vício predileto;
não quero ser avesso a nenhum mal,
na hora do meu filme,
eu juro, juro que não morro no final,
mas só se Deus se zangar
é que ponho a mão no coração
e digo: Pai, por que esqueceu de mim na perfeição?
entupo  a alma de coisas proibidas,
e o blues me cura outras feridas,
o blues me cura das feridas...

Cruzes de Jesus,
Luzes del Fuego, Ovos apunhalados,
meus destinos trocados,
meus desastres expostos,
eu sou até os ossos, eu,
eu quero é o mais cruel,
e por isso, estou aqui pra declarar,
vim dizer,
que odeio cigarros,
ando a pé, 
adoro samba e blues,
e, do meu jeito, tenho fé!

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Pensamento de partida


Assim que não for tão cedo,
Tão logo de me esquecer,
Quem sabe mande recado,
E avise ao impossível,
Que fui, e quem sabe o quando
Vivamos as mesmas estrelas
Que as daqui, errei na mira,
E agora acertaram partida.

Enquanto dormem as crianças
Sem choro nem vela alguma
É assim que a palavra amarga
Cala na hora do rumo
E onde quer que se vá
Dá pra avistar quem se ama,
De dentro dos estrebilhos,
Do fundos das almas irmanadas...


Os sonhos, sejam quais forem
Afinarão instrumentos,
E a saudade dos melhores
Revirou os olhos dos cegos,
Concluo que os desafetos
Ainda precisam de alívio,
Mas amores que cristalizam
Cobrem todas as despesas...

Assim que preciso for,
Os relógios desacertam,
Os tempos fogem da estrada,
As escolhas ficam pra longe,
E já haverá agostos
Afora os que nos consomem
E aqueles abraços guardados
Não sobrarão pro cansaço...

Os corações derramados
Quando enlaçados estão
Comungam a mesma esperança,
Tratam-se forma amena,
O adeus é uma armadilha
Que só captura o ilusório,
Porque o brado dos sentimentos,
Dorme tranqüilo no fundo do peito.




segunda-feira, janeiro 18, 2010

VÁRIAS VEZES EU


Meio do meio do mundo,
É jogo de cintura a senha do acaso,
Aqui do lado cru 
do Atlântico incerto,

Quem não souber de nada, nem queira, nem saiba,
Poeira paira.
Preto moleque perdido,
O pé do Pedro é preto, e o Pedro é meu primo,
E eu sou também morfino, herdeiro do risco
Quem erra meu apelo, acerta o descaso,
Que é o meio disto.


Agora vou sartá de banda pra ver no que dá,
Esconder bola do jogo pra experimentar,
Beira do mar, beira do mar...
E o restante do sujeito é pilha pura,
Água turva de mistura que ninguém atura,
Beira do mar, beira do mar,
A solidão é mal de mundo, viva a solidão,
Pra virá homi de bem tem que roer osso do cão,
Beira de mar, beira de mar
O miserê é bem bonito de se ver,
Vira arte contemporânea pra nego vender,
Nego que nunca foi nego, nem deu lombo pra bater,
Eu quero ver fogo pegar e nego não correr,
Aqui é esquema breu,
Tem que ter mais de sete alma,
Eu tenho sido várias vezes eu.


Porque, Deus é Pai e nunca falha,
Há de sempre haver migalha, 
esperada igual banquete...
Até chegar aqui na mão da gente,
A fome já foi na frente,
E devorou o que restava...

terça-feira, janeiro 12, 2010

PARA CASAR CONTIGO


Querendo me casar contigo,
Esqueci de outros luares,
Quando beijei desafetos,
Desapartei coincidências,
Datas se foram, diluídas
No turno das desesperanças,
Pois, para casar contigo,
Só vivendo outras infâncias...

Tudo para te guardar
No meio dos meus cristais
E para nunca nunca mais
Sumires nas desvairadas
Pois quando quero o que mais quero
Não meço meios de engano
Traço o certo infindo plano
E esqueço outros boleros

Fica só essa menina dançando nos olhos meus
Luas íris, se me vires,
Seu olhos serão só meus.
Pelos prantos derramados, merecerei beijos seus,
Ventos idos, só bem vindos,
Teus desejos sem adeus.

sábado, janeiro 02, 2010

questão de aptidão (um novo samba para saudar 2010)

Você sabe o que é
a grande mentira,
e acredita porque quer,
pode ser conveniência ou mesmo falta de vontade,
de saber dessa  verdade 
cristalina feito água,
ou é efeito de mágoa,
ou um mistério qualquer...

você sabe onde está a grande cilada,
e prefere a armadilha
coisa falsa porque brilha,
tão amarga enquanto adoça,
a boca que prega a peça,
a ilusão que te alimenta,
a estrela que  orienta,
cega mais do que liberta...


é tudo uma questão de aptidão
viver a vida e despistar o drama,
às vezes falta a noção
deitado em cama de ouro,
sonha mergulhado na lama...
mas quando entende a razão
até arrisca perder,
mas perde de pé
e se levanta sabendo quem é.



segunda-feira, dezembro 21, 2009

SEM CHÃO

EU RESPIRO POR UM MECANISMO DE DEFESA E INSTINTO.
TRANSGRESSÃO. ATIVISMO POLÍTICO. INSENSATEZ. PURO DRAMA.

DE REPENTE, EU POSSO ESQUECER DE ESTAR VIVO E ENTÃO, VIRAR APENAS UMA LEMBRANÇA TÔSCA.
EU APRENDI QUE DEVERIA DEMARCAR TERRITÓRIOS,
E GANHAR TUDO,
NUNCA CHORAR,
NEM TREMER,
TUDO PARA NÃO SER BANIDO DA TRIBO.
E AQUI ESTOU, ÚNICO DA TRIBO QUE ESTÁ VIVO,
AGONIZANDO, MAS VIVO,
MAS ÚNICO, NA TRIBO INTERMINÁVEL QUE SOU EU.
TEM DIAS QUE SIM, QUE TUDO, QUE DEVERAS, QUE LOGO, QUE PRIMEIRO, QUE... QUE...
MAS TEM DIAS QUE...
ESSE É UM DESSES DIAS.
AMANHÃ PODERÁ SER.
ONTEM FOI.
SEMANA QUE VEM IDEM.
MES QUE VEM, ANO QUE VEM, 
TANTO, TANTO, TANTO, TANTO...
TODAS AS COISAS PELAS QUAIS SE GEMA.
TODAS PELAS QUAIS SE SORRIA.
EU SOU ISSO, ESSE DESPREPARO AMBULANTE.
E PODE SER QUE NUNCA MUDE,
OU JÁ TENHA MUDADO, EU NEM SEI.
CONFESSO, QUE NOS MOMENTOS EM QUE ISSO É DITO, A BRISA AUMENTA UM POUCO,
E DÁ PRA SENTIR ALGUNS MILÍMETROS DE ALÍVIO.
MILÉSIMOS DE CALMA.
PAUSAS NESSA AGONIA.



EU SÓ QUERIA TER ALGUM LUGAR ONDE COLOCAR MEUS PÉS, UMA VEZ NA VIDA.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

E NÃO SE PERDERÁ JAMAIS...


MARIA, senhora do  reino,
a minha palavra é sua,
minha voz é também sua, 
e só sua minha rima,
também devota a minha rua,
minha casa te ofereço,
o mar do meu endereço no meio da água profunda,
Maria te oferto o silêncio,
o silvo por entre as matas,
as coisas menos exatas, e aquelas estranhas demais,
pra que clamem tua paz,
ternuras de trovoada,
o som da tua pegada sibila nos campos astrais,
Maria tu és meu rosário,
clamores do meu amparo,
de ser purificado nas glórias de tua fé,
Maria eu bem sei que tens
desejos de amores vastos,
e solidões que se foram,
e outras canções de esperança,
Maria, teu riso dança
na luz raiada do dia,
minha eterna companhia, 
essa voz que Deus te deu, 
mas não guardas sob o breu,
emprestas aos diamantes,
lume dos meus instantes,
deusa dos sonhos meus, 
Maria, senhora minha,
amo todos os teus dons,
cores de todos os tons,
que tua boca nos revela,
o teu canto é uma tela
onde a vida se refaz,
Maria, há coisas eternas,
que só o teu canto me traz...

domingo, dezembro 13, 2009

Desaparta!!!!

e de repente eu disse:  - chega,
vá embora da minha alegria,
então tudo o que eu queria,
era ver você fazendo mala,
sem herança nem apelo,
larga a mão do meu cabelo,
nem precisa se explicar deixando carta,
abra a porta e desaparta...

abra a porta e desaparta,
palavrinha mais traquina,
parecendo estriquinina
colocada em vitamina,
feita pra lhe dar sustança,
desaparta! quero bocas de outros beijos,
calores de outros abraços,
coração tá no leilão,
quem ganhar da solidão, não precisa devolver,
e o desaparta é pra você... desaparta!!!!

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Poema apenas pra você

e de repente, 
num piscar dos anjos,
você pode virar poema.
Eu posso te fotografar, passando num ônibus de linha indesejada
e você ficar nas minhas íris um tempo hábil,
e num hábil tempo de ter que prestar contas do meu dia,
das minhas agruras, dos meus anti-sambas,
eis que soprará em meu ouvido sua imagem, e você vai virar o poema possível do sentimento eterno.
E enquanto ele durar, tal sentimento,
e a gente já não se vir vida afora, quem sabe,
a gente não recordará que se entreolhou,
mas o poema avisa,
o poema divisa a linha dos estranhos que éramos, e agora
há esse pacto mudo, mas o poema irradiou os sonhos,
e talvez você nunca leia, nem acate, nem dimensione o que eu codifiquei
e agora desalinhavei docemente em mansa rima e aura dourada,
seu poema, pronto e seu, por ti, pra ti,
e que agora, tomara, numa hora,
você se reconheça, por mim.

ANTIRITMO


zero. zero. zero.
volta-se inteiro ao marco pretérito inconcluso,
clamando pela amnésia amada que varra os arroubos do vício,
desistindo de ser, ser tanto.
ser eu, finalmente, eu, 
assim, dessa matéria minha,formada amálgama forjada arrítmica, císmica

e as palavras torpedeando a fuga para os lugares comuns,
as palavras, minas irascíveis, contra o caos celestial,
e tudo flúido e terno e corrosivo e bárbaro e legítimo...


zero! zero! e zero!
e dele, os ímpares de todas as coisas,
e os  erros aos ares, e aos ares as rimas, e às rimas as curas,
e às curas os Cristos, e aos Cristos as cruzes, e aos credos as culpas,
as incrédulos, todas as desculpas,
aos irmãos, todas as permutas,
um coração incendiado agora vai a leilão e, pasmem, já nasceu arrematado,
arrebatado pela indecisão,
do ir/não ir, chegar/estar, ficar/permanecer no mundo 
o mundo que fez por si... no ritmo exato, incomum a outro,
estranho divino irmão salvador de seus contrários.

domingo, novembro 02, 2008

Entre os tropeços



Tenho coisas a partilhar de dentro dos meus infernos e vestidas de rosas.
Tenho coisas a esconder.
Coisas a não explicar por inúmeras horas
Enquanto os enigmas beirem o extremo azedume.
Tenho coisas a emendar, remendar e desdizer,
Enquanto os incautos esperam o transporte que jamais virá,
E enquanto o epicentro do estrondo imenso for aqui perto ou aqui mesmo.

Tenho textos inconclusos entulhando a passagem da artéria criativa,
E este sangue virulento querendo encharcar o pensamento.
Tenho soluções impensáveis.
Tenho incinerações à vista,
E também haverão as madrugadas vãs sem vinho nem alvorada,
O dia abortado coroando o rei que fugiu raptando todo o ouro do sol
E foi parar atrás do horizonte, conivente pano de cena, e por detrás o oco do nada...

Há o ócio vestido de razão para ficar calado,
A musa nua desvairando no transito da avenida escarlate
E o mar me acusando, ali detrás, de fascínora e anti-herói do submundo.
Até que caia neve neste trópico mal fundamentado e absorto,
Até que o cão danado nos escolha sua raça herdeira,
Haverá uma febre qualquer a me perseguir, e assim,
Deverei diluir amor e ódio com toda profusão que necessitam os que me habitam.

E enquanto isso me for a única saída para parecer vivo
E toscamente me servir de fuga ou razão de aqui estar
Jamais me furtarei a confundir(me) entre tantas vias de perigo,
E ainda mais escava-las garganta adentro, deste meu signo de ser/não ser, como vim,
Desassombrado e inseguro de que nada me caiba e por isso,
Me encontras aqui, a essa hora da noite ou dia, nu em verso,
Nem te pedindo nada e nem exigindo que me tomes de refém ou filho.

Pois há um coração entre os tropeços
Pra aventar a idéia de que o dia lembrará dos meus erros.




Eduardo Alves, 26.out.2008















sobre meu nome





Meu nome de batismo,meu pai quem deu:
Nome de jogador de futebol, apelidado Tostão, de Minas, onde nasci.
Eduardo, sete letras, escorpiano,
Nascido segunda feira, três e quinze da madruga, num dia treze de novembro aí
Registrado em 22 de novembro, dia da música.

O meu nome significa guardião,
Refere-se a bom amigo, pergunte aos meus sobre isso,
Nome não muito comum nem de luxo,
A mim soa bem, acho que agrada,
Nome meio leve, que faz uma curva no ar
E-DU-AR-DO
E se fecha meio sem que nem pra que, meio sugerindo ou voltando pra não sei onde.

Nome do primeiro neto de Dino e Teté
Seu Dino, aquele da Leste e Dona Tereza do INPS.
E primeiro filho de Afonso e Norminha,
Norminha, a que tirou segundo lugar na Grande chance de Flávio Cavalcanti,
Perdendo pra Armandinho na final, e Afonso, aquele mineiro que trabalhava na Camurujipe e morreu do coração.
Eduardo, Duda na família, Eduardo Alves no palco, Edu, Dude, Dú para os mais chegados,
Tem gente que gosta, gente que não gosta, mas vai vivendo desse nome que tem e por aí vai.

Meu nome me torna responsável pelo que digo, pelo que faço, e quando me apontam,
Na maioria das vezes gostaria de precisar apenas
De um sorriso para responder a quem quer que seja.
Meu nome que eu daria a um filho, se não fosse já um nome meu,
Porque eu não gosto dessa coisa de júnior,
Acho que cada qual com seu cada qual.

Esse sou eu, com esse nome que tem similar em outras línguas,
E me orgulho por falar, creio que bem e com respeito, a nossa língua mãe brasileira.
Quando eu ligo, e perguntam quem é, eu digo, é Eduardo,
É bom dizer essa palavra que me nomeia,
E me faz não-anônimo, mas ainda assim, com meus Eduardos secretos,
Convivendo todos na fusão que sou, e em mim respondo.
O nome que vou escrever logo depois desse verso que ofereço, logo aqui, pra decretar o fim deste poema...



Eduardo Alves, out.2008

domingo, novembro 25, 2007

HOMEM SEM FIM


eu,

homem comum,

vertebrado, sentimental,

infernizado,

homem algum,

coisas sim,

coisas não,

tudo hospedado,

num único coração,

todo remendado mas fingindo de inteiro,

primeiro atingido,

último derrotado,

coração de braços fortes e mil razões,

capitão do pelotão,

soldado, e general,

até o fim, exército completo,

vencedor nato,

coração pronto,

pra lutar, sempre por si,

e até por quem

nunca lhe deu devido valor,

dias de breu, pra ter a paz

de pertencer a um rapaz, feito eu,

homem normal,

uma árvore um livro,

quem sabe um filho,

deixar um sinal,

de que esteve nesse barco e já passou

mas foi um homem sem fim,

porque sofreu, mas amou,

e já que amou conseguiu

deixar um pouco mais humano

o mundo tosco que viu...




Eduardo Alves

segunda-feira, outubro 29, 2007

Te dou minha palavra


lembro de você imóvel de cílios apontados pro céu,

brincando de dizer coisas que me assombravam o coração.

lembro de você insubstituível.

a vida moldada em torno dos seus cabelos e seu abraço.

lembro de coisas indizíveis.

ninguém acreditaria se eu disser o que fazia a gente dar tanta risada,

jeito tolo de dizer coisa importante,

sem a menor importância.



lembro da casa que era sua e agora não sei a quem pertence,

mas que dentro de mim virou a casa eterna do meu amor pra sempre.

claro que nada nela deve ter mais sua cor,

então tingi a memória com o cheiro do que me lembro...

lembro que eu te vi chegar de camisa verde, a última pessoa a descer do carro, pensei que nem vinha,

você nem sabia que eu via, estava lá de cima, da casa do amigo hoje morto,

mas te vi saltar do automóvel por último, e pensei,

meu amor tarda mas não esqueço...




lembro até

de coisas que nem quero

canções que já nem ouço,

pessoas que nem vejo,

porque isso tudo me traria o gosto do que não tive

em ti, tantas coisas faltaram ser minhas,

seu coração, fragmentos apenas,

nem sei se foi suficiente para outra felicidade,

e a que sinto nem sei se é feliz,

mas sei que lembro com todo cuidado,

de tudo, amargo ou florado.



e te dou minha palavra que está tudo a salvo.



Eduardo Alves

sábado, outubro 27, 2007

RIO VERMELHO BLUES

sentimental feito o cão,

saio de noite, objetivos confessos:

um só olhar desejoso, e farei mil progressos...

alguém me convida num bar: cante um trecho da canção

que fala de Baudelaire

“ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama

de Baudelaire...”



sentimental feito o diabo,

volto pra casa, adjetivos pregressos:

nenhum olhar desejoso, e bebi mil dejetos...

alguém me diz na TV: cante um trecho da canção

sobre os poetas de araque:

“ninguém me ama, nem aqui nem no Iraque,

ninguém me chama de Chico Buarque... “



comecei a duvidar,

sobre o que vim fazer aqui,

se é pra me acabar de rir de mim,

ou me encontrar, pra esquecer de fugir;

eu sempre sou otário e bobo da corte,

eu sempre deponho a favor do azar,

mas eu amo, e isso não é morte,

eu canto é pra me eternizar!



Eduardo Alves

terça-feira, julho 31, 2007

MIRA

Quem quiser me matar
Mapeie
As dores escondidas
Recônditas
Inéditas
E as esqueça.
Quem quiser me matar
Pense a lástima
Derramada e segura
Torpe, vil, matadora
A que devora e não se esconde mais.
Coração,
Não atire.
Cabeça,
Não.
Órgãos vitais,
Nem pense,
Não vale, não causa, não adianta...
Mire a voz,
Essa sim,
Qualquer calibre que use,
Podendo calar, mire
Podendo evitar, atire,
Quem quiser me matar me erre,
Só me cale, me cale, me cale...


Eduardo Alves – 24/5/07

Matreiro


do meu embaraço saio eu,
carrego meu santo com a força do braço,
desapego do frio, encaixoto o cansaço
pra limpar meu filme, faço escarcéu...
meu objetivo não é ir pro céu,
nem fazer meu nome parecer dinheiro,
é poder ser claro, saber ser inteiro
em tudo o que eu faço, tudo o que acredito,
nunca me isento nem nunca repito
no coro contente a consideração
de que sendo mais um, eu livro a minha cara
e faço parte de quem só reparte a mesma ilusão...


piso em falso,
às vezes murcho,
desequilibro,
nunca digo onde dói e sigo bonito, mais limpo,
no meu assobio vive um passarinho
e sua asa é a senha que o meu poema pediu pra nascer...
esse é meu jeito de não desaparecer
no meio do anonimato, cansado da vida que se leva em vão,
o samba me talha matreiro,
o samba me elege sensato,
o samba , de fato, é o hino da minha nação...


Eduardo Alves

quarta-feira, junho 20, 2007

De vez

Seu coração tem pulado por alguém?
o meu, permanece pulado, por você
ainda grudado no alto, do mesmo jeito
no pulo que deu
durante o primeiro olhar dentro do seu,
Meu deus, que frio que me deu,
calor que aconteceu, depois,
nada que se tenha medo,
nada que se precise desvendar,
segredo pregado no ar, nosso brinquedo
nós dois, doidos pra brincar...


seu coração tem batido por alguém?
o meu, permanece batido, por você,
não tava no seguro, deu perda total
do juízo, do pouco que havia
virou pó a razão, virou poesia
lugar de confessar os calafrios todos
delírios raros que acontecem fácil
em nossos preciosos jogos de contato...


mas e você, sem fim,
já é de alguém?
você sem falta, com certeza,
já se deu?
alguém te recebeu de presente
te percebeu diferente
na multidão te quis,
e teve?
Ou você guarda alguma coisa só pra si,
pra quem te amar à vera, descobrir
me diz,
o que é que eu faço por você, que ninguém fez,
pra te roubar pra mim,
de vez?

domingo, junho 17, 2007

Coração estranho a mim mesmo

Alarmes por todo o corpo. Sirenes. Turbilhões.
Há invasores por perto,
e tudo o que está suscetível
a derramar com urgência algo lúdico,
alardeia a vocação
tão nobre, de ser alvo,
a ponto de salvar
fracas correntezas,
de não conseguirem esculpir, o náufrago,
tão necessário.


Durante a invenção de tudo,
pensou-se o coração,
entre o lapso, tentação primeira,
o coração foi mapeado,
perdeu-se o mapa e ficou
a sensação
do incômodo eterno
de poder perder-lhe
a qualquer hora
na mesa de jogo,
no cais,
nas alturas.


Enquanto nada agüentasse
os fatídicos expedientes
de entra-e-sai de oceanos
e enfartos fulminantes,
ficou o coração
no cargo
de vermelho
e vivo
e bombástico
e esquerdo
e primeiro a parar
e levar consigo
tudo
o que vivo ficasse depois que não agüentasse o mundo mais lhe infernizando, dentro


o meu, este meu, coração extraviado
nos navios que iriam partir pro além mundo,
este romântico mártir da América ultimada,
malasartes,
somítico,
inadequado,
insurgido,
contrabandeado coração não sei/não saberei/nem quero
estrangeiro de mim, em mim mesmo,
eternamente até seu/meu fim...


Eduardo Alves, junho/07

quarta-feira, maio 30, 2007

POESIA DE VOCÊ

A poesia sabe de você: ela se filtra
Em sua carne doce, sua alma mansa;
A poesia cabe em você, ela se anima
De suas cores-flores, pérolas de rima...

Ela não sai dos invólucros do medo
Sem tua palavra dita rara primavera
Em sua boca ela é filme sem segredo
E se desnuda toda em sua pele-tela...

A poesia veste as suas fantasias
Já te queria musa antes que eu pudesse ver
O que os amores me dariam de você,
A poesia chegou antes e esculpiu
Todos os traços que não devem perceber
Olhos comuns de quem jamais te sentiu...


EDUARDO ALVES – MAIO 2007

quinta-feira, maio 24, 2007

Cafonice



rasguei
mil cartas que dariam
boleros de sucesso, ah, rasguei
queimei vinis 78 rotações,
talvez assim exorcisasse canções
que poderiam vir de mim mesmo,
contaminadas de romantismos vis,
de tantos compositores febris,
que eu jamais quis ser,
que eu lutei pra jamais ser...



cuidei,
de corações perdidos,
escrevendo mil pragas e revés,
pra quem do amor se utilizasse ao fazer sofrer
pagasse o preço do insucesso e pudesse querer
tentar outros refrões sem ilusão,
livres de romantismos vis
de tantos compositores cruéis,
que eu jamais quis ser,
que eu lutei pra jamais ser...



cafonice demais,
sandice demais,
falar de amor e de dor,
misturar fel e sabor,
Deus me livrou desse patético expediente...
se eu fosse um cafona dessa estirpe, assim,
cantaria boleros rasgados,
e diria mesmo sobre mim,
o que atribuo aos outros, coitados...



Eduardo Alves
maio, 07

quarta-feira, maio 23, 2007

Tantos Amores ( porque prima Joana me "acusou" de romântico)

é sempre,
não é de vez em quando só, relance,
nem de surpresa,
sem chance de ser só um pouco,
muitas vezes vem, assim, o transe
algo revolto,
quase de cinema a tela inteira,
quase de oceano, além, pra lá da beira,


é sério,
toda a razão de ter tanto mistério
é porque está o tempo todo, aquilo
incomodando de prazer e vício
a calma de artifício,
o equilíbrio morto,
o tempo está propício o tempo todo...

é isso,
o nome que se dá a tudo
que precipite a vontade de ser
TÃO INSANO QUANTO
não se julgava poder,
anti-projeto de medo, amor,
estímulo de desgoverno, amor,
perda de cada sentido, amor,
mais que o sentido inteiro, em si;
pra se afogar de verdade, amor
dentro de cada loucura,
tantos amores se façam, por nós,
luzes da nossa procura...


Eduardo Alves - mai/07

terça-feira, maio 22, 2007

Soneto controverso

Diga-me algo
que não combine
com essa boca
que tanto amo.

Diga-me adeus
pois é isso
que mais temo
e não decifro

assim
vou viver livre
de tais mistérios

e não dirás
nada que nunca
me tenha ferido

eduardo Alves, maio/07



sábado, maio 19, 2007

ENCERRADO

assunto encerrado, desejo morto,
quarto trancado por dentro...
no caos do contato, pás de cimento,
no cais de partida ventos pro barco...
To indo e me solta, me sinta escorrendo,
o amor é laico, o gôzo é sedento,
todos os defeitos cabem no meu peito,
quero abri-lo ao vento, me sentir alado...

e antes que eu diga
seu nome em vão, para qualquer praga,
e tema o revés, adeus, adeus, até jamais
um samba, pode resolver a questão
basta cantar em alto e bom refrão,
você mais não, ou não, você não mais...

EDUARDO ALVES, MAIO/07

TODOS OS PERIGOS

Saiba,
Colocar os pingos nos “is”,
E encontrar maneiras sutis,
De espalhar misérias e fel,
Tudo mergulhado no mel,
Pragas e feridas sortidas,
Tatuadas nas peles febris...

Suba,
Na altura máxima do mal,
Todos os requintes mais vis,
Seremos cobaias fiéis,
Nada é tão prazer que a teus pés,
Sentencie escândalos pra nós,
E nos deixe sem sangue e sem voz...

Estacione seu corpo na minha vontade,
Todo o bem, todo o mal da verdade
Eu quero assim, seus anjos e diabos
Hospedados em mim...
Vez eu quando eu procuro outro vício,
E te deixo no ar,
Pra enfeitiçar outro tonto,
E só reinar, e reinar, e reinar...

quiero la noche entera,
E que la noche sea eterna contigo,
Con quen aprendi de los peligros...


Eduardo Alves

Jan.07



sexta-feira, maio 11, 2007

Rotu/lado



Não,
Não faço tão mal quanto diz na bula,
Essas substâncias...
Posso ser diluído durante um eclipse,
A lua subtendida...
Não pareço tão ofensivo assim, entre seus dedos,
Seus dentes me calam,
Reflita sobre mim
Pelo ângulo maduro:
Tudo inacabado, algo de inseguro...

Não,
Não sou imune a boleros castelhanos,
Nem rocks sessentistas,
Tantas vezes me derramo e deixo pistas
Daquilo que me concentra,
Inteiro em todos os pedaços quando me arrebenta
A alma intolerante,
Não nasci pra ser julgado pelo instante,
Há dúvidas de sobra,
Prefiro o meu errante conjunto da obra...

Também, não,
Não cabe produto em minha dor,
A poesia vaza,
A canção delimita a ânsia da agonia
Quando me alivia,
Não sei ser out-door de promoção
O sentimento é raro,
Tudo em mim, da dor, é diamante caro,
Nem dinheiro vasto compra meu segredo,
Anti-rotulado coração sem medo...


Eduardo Alves

quarta-feira, maio 02, 2007

SONETO ESQUERDISTA

Coração de pasto, continente aflito,
Roubem-lhe as uvas e cuspam-lhe pedras.
Terra em que ninguém passeia nem se enterra,
Coração enfastiado de amores insolúveis.

Credo em cruz me impetrar outra paixão de inverno
Fazer engolir o fardo e entoar o blues amargo
Em dor maior, hinos irracionais em batida esquerdista
Tudo vermelho, mas no poder, desbotado, desbotado...

Tantas transfusões serão insuficientes
Para lhe dar caráter e jeito de algo
Que se respeite para não apanhar de novo, coração

Mas não te curas porque não te achas
Nesse emaranhado de luas que escaparam do limbo
E se enfiaram no peito pra te encouraçar, te esconder, te afogar em luzes...


Eduardo Alves, maio/07